Baker Tilly nos Media | Portugal 2020: Entrevista a João Aranha

22 February 2016

Portugal 2020
Entrevista a João Aranha, Partner da Baker Tilly
In Jornal OJE (artigo original)

 

Que leitura faz do desenvolvimento do Portugal 2020 no último ano?

Foi um ano de turbulência política que teve impacto no normal desenvolvimento do Portugal 2020, atrasando a abertura de concursos e disponibilização de verbas.

Não foi o desenvolvimento desejável, digamos que foi o possível.

Neste momento, a excessiva burocratização, juntamente com os atrasos nos pagamentos, são as principais críticas apontadas ao Portugal 2020. Concorda?

 Acredito que a burocratização não seja assim tão diferente do que tínhamos assistido nos programas-quadro anteriores, antes pelo contrário o mecanismo de contratação do incentivo encontra-se mais célere.

 Já no que concerne ao atraso nos pagamentos é, certamente, um ponto a melhorar, como também devemos apontar a celeridade na análise de candidaturas e a ambição legítima em dispormos de um calendário de concursos que seja cumprido.

Que programas específicos revelam um melhor desempenho?

O Programa Operacional Competitividade e Internacionalização é o que tem demonstrado um desenvolvimento mais consistente e permitido a mais entidades a obtenção de fundos estruturais.

Não é alheio a este melhor desempenho, o facto de estarmos a falar do programa operacional mais direcionado para as empresas privadas, e se assistir (e assim se espera que continue) a um fervilhar constante, evolutivo e altamente competitivo de ideias, projetos e negócios inovadores e diferenciadores.

Que áreas mais atraíram as empresas? Estas são as que encerram as maiores oportunidades ou existem outras, de grande potencial, por descobrir?

Devido ao maior desenvolvimento do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização em particular, diria que os concursos que visaram a Inovação, bem como a Internacionalização foram os que demonstraram a maior atratividade para investimento por parte das empresas.

No entanto, acredito que o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos também revele fortes áreas de investimento para várias entidades públicas e privadas.

Com que dificuldades se deparam as empresas nos seus processos de candidatura?

Existem dois tipos de dificuldade com que as empresas normalmente se deparam: uma de índole financeira e uma outra relacionada com o detalhe de informação requerido no processo de candidatura.

A dificuldade financeira encontra-se relacionada com a estrutura da própria empresa, nomeadamente, a autonomia financeira, empresas consideradas em dificuldades e modo de financiamento do projeto.

Por outro lado, e ultrapassadas as dificuldades financeiras, o processo de candidatura exige uma análise aprofundada ao setor de atuação, à estratégia da empresa, ao plano de marketing a seguir, entre outras.

É óbvio que o promotor/empresário tem a responsabilidade de conhecer o seu mercado, conhecer os seus concorrentes, definir o rumo da sua empresa, saber diferenciar-se dos demais conhecendo as suas forças, fraquezas, ameaças e oportunidades, mas não deixa de ser igualmente verdade que nem todos os empresários e promotores têm uma formação em gestão, e que neste sentido, o modo de apresentação que é requerido em sede de candidatura se possa tornar menos acessível a quem nunca assistiu a aulas de estratégia, marketing e afins.

Por último, uma dificuldade sentida por muitos promotores que desejam realizar as suas candidaturas com recursos próprios, é a própria especificidade legislativa e regulamentar dos fundos estruturais, dos programas operacionais e dos próprios concursos. Não é uma matéria ligeira e exige estudo, análise e acima de tudo prática, para que se possam garantir candidaturas com sucesso e sem imprevistos indesejados.

Que especificidades ditam a sua elegibilidade?

Não sendo uma especificidade, antes pelo contrário, acima de tudo temos o projeto e o modo como o mesmo se enquadra no concurso específico do programa em questão, e ainda o enquadramento deste nas políticas de desenvolvimento do setor, da região ou mesmo do país.

Paralelamente, o projeto deve ser coerente com a estratégia da empresa, com o seu plano de marketing e posicionamento na cadeia de valor, aportando sempre valor para a empresa, permitindo um crescimento sustentado do beneficiário quer em termos financeiros, quer em termos de recursos humanos, permitindo em última instância, a criação de vantagens competitivas para a economia nacional como um todo através do fomento de maior competitividade a nível nacional e internacional.

É importante notar que não existem especificidades únicas que ditem o sucesso ou insucesso de uma candidatura. O projeto deve ser encarado como um todo, não existindo pontas soltas, e que os detalhes mais ínfimos não devem ser descurados, pois a ligação entre todas as especificidades alavanca, além do sucesso de uma candidatura, o sucesso de um projeto, de uma empresa, e por último da economia nacional portuguesa que acaba por ser, entre outros fatores, a soma de todos os projetos executados com sucesso.

Sobre o Programa, o atual Governo já veio frisar que pretende “recuperar o tempo perdido”. Podem esperar-se tempos de aceleração nos processos e nos pagamentos?

Quem espera, sempre alcança, se bem que por outro lado: quem espera, desespera…

Todos os governos, em vários momentos no tempo, prometem uma maior celeridade na análise de candidaturas e processamento de pagamentos. No entanto, na maioria das vezes, todas estas promessas saem furadas e, em última instância, são sempre os beneficiários e promotores que acabam por “sofrer na pele (ou na tesouraria)” os constantes atrasos.

No entanto, a verdade é que o desenvolvimento económico não pode esperar, e todos sabemos disso, incluindo todos os responsáveis políticos e operacionais pelos fundos estruturais, pelo que todos queremos recuperar o tempo perdido e estou certo que todos, sem exceção, rumaremos no mesmo sentido.

 

 


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