
06 May 2016
Azeite – Um setor exemplo para Portugal
Por Sofia Castro, Analyst
In Jornal OJE (artigo original)
Portugal dispõe de condições climatéricas e naturais muito vantajosas que, com adequado investimento público e privado, podem dinamizar vários setores da nossa economia. O setor olivícola é um exemplo deste aproveitamento de vantagens comparativas que originou a modernização do setor e o aumento da competitividade e produtividade.
Investimento Público
Foi no Baixo Alentejo que se deu o maior desenvolvimento do setor, mais concretamente na zona de influência da barragem do Alqueva. Esta região, responsável por 70% da produção nacional de azeite, assistiu à transformação das culturas tradicionais de sequeiro em novos olivais intensivos e super-intensivos de regadio. Este desenvolvimento é fruto de um grande investimento público na construção do maior lago artificial da Europa e, posteriormente, do plano de irrigação que foi implementado em grande parte do baixo Alentejo (120 mil hectares).
O investimento na barragem e nos canais de rega disponibiliza água todo o ano, e deste modo Portugal não sofre quebras tão acentuadas como as que Espanha ou Itália sentiram na última campanha e que originou o aumento do preço do azeite. Uma vez que se perspetiva que os preços continuem elevados, as nossas exportações irão beneficiar desta valorização.
Investimento Privado
Para além do investimento público, também o investimento privado, por parte dos empresários agrícolas, foi fundamental para a transformação e modernização da fileira olivícola. Estes empresários, recorrendo não só a capitais próprios e alheios, como também apoios comunitários, aperfeiçoaram os sistemas produtivos, mecanizaram a apanha e construíram/ equiparam lagares dotados da última tecnologia. O estímulo público foi determinante para incentivar os empresários e é nesta ótica que o estado deve interferir na economia, isto é, impulsionando o investimento privado.
Resultados
Estas mudanças proporcionaram um aumento significativo de produção por hectare, a redução de custos e o aumento da qualidade. Os números comprovam esta melhoria: a produção de azeite registou o valor mais elevado dos últimos 30 anos, 100 mil toneladas de azeite, um aumento de 64% em relação ao ano anterior.
Consequentemente, assistiu-se ao crescimento das exportações de azeite que contribuíram para a melhoria da balança comercial. Em 2015, as exportações de azeite ascenderam a 433 milhões de euros, o que tornou Portugal o quarto maior exportador de azeite do mundo. Para além disso, estima-se que tanto a produção como as exportações continuem a aumentar pois muitos dos recentes olivais ainda não atingiram a plena produção e há novos olivais a serem cultivados, fruto do crescente entusiasmo em torno do setor.
Resta, agora, definir uma estratégia nacional para as exportações de azeite. Neste contexto, Portugal deverá especializar-se na venda de azeite de denominação portuguesa associado a marcas de valor, em detrimento da venda de azeite a granel para as grandes empresas espanholas e italianas, que depois o comercializam. Se, por um lado, o investimento público será fundamental para a promoção internacional do azeite “made in Portugal” e da sua qualidade, por outro os empresários agrícolas terão, também, um papel fulcral através do investimento na criação e valorização de marcas e canais de distribuição.
Em suma, graças à conjugação de uma vantagem natural, do investimento público e do privado, hoje somos altamente produtivos, competitivos e auto-suficientes na produção de azeite. Este caso de sucesso português pode, e deve ser tomado como exemplo para outras áreas agrícolas e setores económicos onde temos potencial para aumentar a produtividade e tornarmo-nos competitivos.