
29 April 2016
Se a economia fosse como o futebol (Parte 2 – A importância dos “pequenos”)
Por João Palma, Senior Analyst
In Jornal OJE (artigo original)
“De que clube é que és?” - a resposta cai, na maioria dos casos, num nome entre três possíveis: Benfica, Porto ou Sporting.
Este traço cultural tão sui-generis do futebol português prejudica o nosso campeonato e faz com que os restantes clubes que compõem a nossa liga tenham dificuldade afirmar-se: a falta de projeção internacional dos mais pequenos limitam as suas receitas ao mercado interno, condicionando assim o seu potencial de crescimento. O fosso entre “grandes” e “pequenos” é por muitos apontado como a raiz da falta de competitividade (e atratividade) das competições nacionais.
É possível estabelecer um paralelismo entre a realidade da liga portuguesa e o tecido empresarial português, após verificar que o último é essencialmente constituído por grandes Empresas e PME demasiado pequenas para singrarem fora de portas: embora representem mais de 99% do nosso tecido empresarial, geram apenas 60% do total de volume de negócios do país, ficando em muitos casos, devido à sua reduzida dimensão, confinados ao mercado nacional.
Seria insensato afirmar que um verdadeiro combate à falta de competitividade da liga portuguesa passaria pela criação de mais clubes “grandes”; será antes necessário diminuir o fosso existente entre aqueles e os restantes. O Sp. Braga apresenta-se como a única equipa capaz de ter algum protagonismo, para além dos chamados “três grandes”. As boas prestações nacionais impulsionaram o clube para campanhas europeias dignas de destaque (finalista da Liga Europa em 2011, tendo chegado, na presente época, aos quartos-de-final da mesma competição). A boa performance desportiva fez disparar o valor das transferências do clube minhoto, contribuindo de forma determinante para um ciclo sustentável de sucessos e crescimento. Muito provavelmente, o surgimento de mais “Bragas” seria o tónico (possível) necessário para que haja um verdadeiro incremento da competitividade e consequente interesse (e investimento) de terceiros nas (equipas que participam nas) competições internas nacionais.
Da mesma forma, um dos caminhos realistas para o aumento da competitividade da economia portuguesa deveria passar pelo crescimento das PME. Embora o mercado internacional represente uma grande oportunidade de crescimento, a internacionalização exige um reforço de estrutura e dimensão por parte das pequenas e médias empresas. Pese embora hajam alguns “Bragas” no mundo empresarial, que se notabilizam devido a ofertas diferenciadoras ou de qualidade superior, uma parte relevante do tecido empresarial português continua a precisar de crescer para competir. O excessivo endividamento de boa parte das pequenas e médias empresas pode levar a crer que o levantamento de dívida bancária adicional (que necessariamente acarreta mais encargos financeiros) possa não ser, em muitos casos, a solução mais adequada.
Assim sendo, urge encontrar caminhos alternativos que permitam dotar as empresas de capacidade suficiente para dar o tão desejado salto. Como caminhos alternativos, é possível apontar, por exemplo, a concentração de empresarial, via fusões de empresas do mesmo setor, permitindo ganhos de escala, e consequentemente de eficiência, competindo de forma mais determinada com players mundiais de relevo. Será o mesmo caminho, uma possível solução para alguns clubes portugueses?
No mundo empresarial (e no futebol), é necessário que, a montante do processo de internacionalização (e de uma boa campanha europeia), sejam adotadas as estratégias de crescimento adequadas que, aliadas a boas práticas de gestão, permitam que empresas (e clubes) nacionais tenham uma palavra a dizer no contexto internacional. Quando os “grandes” já engrandecem Portugal na Europa, urge tornar maiores os “pequenos” – possíveis estratégias de crescimento, passíveis de serem aplicadas em empresas e clubes, serão analisadas e debatidas em maior detalhe em próximas jornadas.