
29 January 2016
Tipicamente, a performance desportiva e o investimento realizado andam de mãos dadas. No entanto, a liga portuguesa de futebol ocupa o 5º lugar do ranking da UEFA, à frente de países que investem nos seus planteis quantias consideravelmente mais avultadas, como a Rússia, França, Turquia, e até mesmo a Ucrânia.
O mesmo principio se aplica na economia: para haver retorno, é necessário investimento, não deixando de ter em conta a nossa atual situação económica. Assim, podemos lançar a questão: não será possível que os empresários portugueses façam, como acontece no futebol, uma boa omelete, ainda que com poucos ovos, desde que criteriosamente selecionados?
A fórmula de sucesso do futebol nacional é simples, mas de difícil execução: comprar barato e vender caro. O campeonato português apresenta-se de forma consistente, no topo das ligas mais lucrativas em transferências de jogadores (saldo mais positivo entre compra e venda de passes de jogadores). A boa fama gozada pela Liga portuguesa no seio de empresários e jogadores contribui bastante para este superavit, sendo sobejamente conhecida a nossa capacidade de potencialização de profissionais de futebol. Deste modo, é possível que os valores das transferências e os salários suportados pelos clubes nacionais sejam mais baixos comparativamente a outras ligas.
Fazendo o paralelismo com a economia, é possível afirmar que a liga portuguesa funciona como uma grande empresa do setor secundário do mercado internacional. Para um melhor entendimento e a título de exemplo: o Brasil é provavelmente o maior player do setor primário (fornece jogadores “em bruto”, os lucros provêm do elevado volume de transferências, em quantidade); Portugal transforma-os, cria valor acrescentado e vende-os como produto final; Inglaterra dá-lhes projeção e visibilidade, vende direitos de imagem e concretiza grandes negócios com jogadores com provas dadas.
Provavelmente, e atendendo à nossa dimensão, a estratégia económica portuguesa poderia seguir as tendências do futebol: o setor transformador deveria ser a aposta lógica de um país que não tem braços suficientes para produzir em quantidade e vender com margens baixas; por outro lado, não lhe faltando qualidade, não tem visibilidade suficiente para que a marca Portugal seja um intangível pelo qual se esteja disposto a pagar.
Seria portanto natural que o setor secundário, com foco na exportação de produtos de qualidade, fosse a aposta da economia portuguesa para o século XXI. Para tal, as condições têm de ser criadas (e aproveitadas): o enfoque em benefícios fiscais no setor transacionável poderia fazer parte da estratégia; os programas de incentivos financeiros e fiscais, como o Portugal 2020 e o SIFIDE, devem ser tidos em conta pelo tecido empresarial português como um preciso auxílio ao investimento. Adicionalmente, a concentração horizontal e vertical de mercado podem ser instrumentos úteis ao crescimento das PME, aumentando assim as suas hipóteses de afirmação no mercado europeu e internacional.
Na economia, tal como no futebol, todos gostaríamos de ser como a Alemanha: aposta forte na formação; desenvolve jogadores de alto nível; protagoniza avultadas transferências e paga excelentes salários. Basta olhar para o sucesso dos seus clubes e seleção.
Devemos ter a consciência que não somos a Alemanha – a dimensão, história e cultura não nos permite. Ainda assim, seguindo a estratégia adequada, podemos melhorar bastante, nivelando a performance economia com a futebolística. De tempos a tempos, quem sabe, aparecerá um Cristiano Ronaldo que fortaleça a ligação entre as expressões “Portugal” e “melhor do mundo”.
Por João Palma, in Jornal OJE